O outro caminho

Há algum tempo venho pensado sobre a minha vida e como ela mudou drasticamente de
uns tempos pra cá.

Eu tenho uma noção muito clara sobre o quanto estou diferente. Mas nunca ficou tão claro quanto o dia que ouvi de uma amiga muito próxima que ela ficava imaginando que a educação da minha família na fé deveria ter sido muito firme desde pequena. Que ela não conseguia me imaginar diferente do que sou hoje.

A percepção dela para mim era tão absurda quanto engraçada, e não pude deixar de rir e lhe explicar que meu caminho de reto não tinha nada, mas que havia sido muito, muuuito torto.

Mas permitam-me voltar um pouco e me apresentar.

Me chamo Emanuelle (prefiro Manu), tenho 35 anos, sou casada há 7 anos com o Guilherme e juntos somos pais de 3 filhos: o Arthur de 6 anos, a Malu de 3 e a Letícia que está chegando em novembro deste ano.

Fiz o 76º Emaús em 2005, participei durante uns 4 anos, quando então me mudei de cidade e me afastei. Fui retornar quase 10 anos depois, no meio de uma grande tormenta que havia atingido minha vida.

É tão difícil explicar de uma maneira resumida tudo que aconteceu desde 2016 para cá,
mas tentarei em poucas palavras: meu filho Arthur sofreu um acidente grave quando eu
estava grávida da nossa segunda filha e desse acidente resultou uma lesão cerebral grave
que o incapacitou para praticamente todas as atividades da vida. E diante de tão
desafiador acontecimento, me vi sendo amorosamente conduzida por uma conversão
que eu jamais imaginei que aconteceria na minha vida.

Eu sempre fui católica, nasci numa família que assim se declarava, mas que muito
pouco praticava. Nunca tive o hábito de ir à missa, nunca fui ensinada a rezar
diariamente, não tive nenhuma catequese – além da necessária para a primeira Eucaristia
–, não conhecia a vida de nenhum Santo, nunca ouvi falar de castidade ou outras
virtudes.

Crisma mesmo eu só fui fazer no Emaús, numa época em que ainda era feita
no próprio curso, por escolha própria e não por orientação dos meus pais. Aliás, não
lembro até hoje como fui parar no Emaús, apesar de ter duas irmãs mais velhas que
haviam participado ativamente do movimento, mas que na época estavam afastadas por morarem longe.

E, mesmo após o retiro, por muito tempo ainda me mantive assim, morna. Católica de
supermercado, como meu marido costuma dizer, escolhendo da doutrina e do
Evangelho aquilo que me agradava ler, que cabia e se encaixava na minha vida. Eu
tinha uma vida boa, um bom namoro, bons amigos, estava me formando numa boa
universidade e já havia até passado num concurso público.

Um belo pacote que a maioria das pessoas olha e aponta como de sucesso. Não havia motivo nenhum para eu querer mexer nisso, nenhum vazio a ser preenchido, nada que eu houvesse buscado que não tivesse alcançado.

É engraçado escrever tudo isso e não conseguir entender como eu podia estar tão
cega naquela época. Como eu pude ter feito o Emaús e ainda assim não ter mudado
drasticamente, como agora eu mudei. Fiquei pensando nisso enquanto explicava meu
caminho tortuoso a minha amiga e uma única explicação me ocorreu: conversão não
acontece como um passe de mágica.

A graça nos toca, mas ela requer um esforço genuíno nosso para frutificar. Sem a nossa correspondência, Deus não consegue atuar. E apesar de ter feito o curso e ter me mantido no movimento por vários anos, eu consigo hoje enxergar que me mantive pelos motivos errados. Quando nos deparamos com uma comunidade tão acolhedora quanto a do Emaús, ficamos de tal forma deslumbrados com a amizade e os laços que existem entre as pessoas, que é muito fácil desviar o olhar do que realmente nos une nessa comunidade: Cristo.

Apesar de ter perseverado em participar, eu não bebi do que havia de melhor: os estudos
realizados nos grupos, as escolas missionárias, os aprofundamentos, a companhia dos jovens que realmente estavam interessados em trilhar um caminho espiritual crescente.

Uma das maiores dores que carrego no meu coração, foi nunca ter tido a coragem de
procurar o então orientador espiritual, Monsenhor Bianchini, para conversar e ouvir as tantas verdades que ele tinha para dizer e ensinar.
Em algumas visitas que realizei ao
seu túmulo desde que voltei, não consegui conter minhas lágrimas ao pensar o tamanho
da oportunidade que eu desperdicei…

De qualquer forma, eu fiquei.

Mas era como água rasa. Terreno pedregoso que havia recebido a Palavra com alegria, mas por não haver colocado em prática, as raízes não tiveram a menor chance de fincar diante das tribulações.

O que aconteceu logo em seguida, em 2008, quando eu me deparei com a minha primeira grande dificuldade: o amor da minha vida, aquele que eu tinha sonhado em casar no minuto em que bati os olhos nele, estava se mudando para o outro lado do mundo – literalmente – para trabalhar.

Eu e o Gui passamos alguns anos namorando a distância, anos estes que foram extremamente difíceis. E como o próprio Cristo prevê no Evangelho, quando o sol saiu, as sementes queimaram e secaram.

Eu sabia que eu tinha ali no Movimento tudo que eu precisava para enfrentar a situação
da melhor maneira. Mas, impregnada do mundo como eu sempre havia sido e continuava sendo, escolhi dar ouvidos ao que soava mais atrativo, fácil e conveniente
para mim, aquilo que não me exigia um mínimo de renúncia e sacrifício.

Iniciou-se, então, nesse período, uma das épocas mais confusas da minha vida.

Um período de muitos erros – erros esses bem mais graves dos que eu tinha cometido antes de ter feito o Emaús – marcado principalmente por um egocentrismo exacerbado, do qual agora eu me envergonho e me arrependo profundamente.

Hoje, olhando para o nosso caminho, eu consigo enxergar o tamanho da Misericórdia que Deus teve comigo ao não permitir que meus erros estragassem nosso relacionamento.

Acho que, de alguma maneira Ele conseguiu visualizar em nós uma
oportunidade de mudança que não ficaria restrita somente a nós, mas atingiria outras
tantas pessoas.
E assim Ele nos manteve juntos e foi aos poucos nos preparando para
algo que nossa imaginação jamais seria capaz de alcançar por si só.

E eu não estou falando do acidente do Arthur, mas de uma mudança tão drástica que aconteceu em nós, que se algum dia antes de 2016 alguém tivesse me falado, eu teria dado risada.

Quando o acidente aconteceu, vivíamos uma fé morna, de supermercado, como eu
mencionei anteriormente. Não buscava crescer de maneira nenhuma na minha fé, não tinha anseio de me aprofundar naquilo que acreditava. Achava que por frequentar a
Missa todo domingo e ser uma boa pessoa, que não fazia mal a ninguém, era suficiente.

Tinha zero noção de pecado e do quanto isso me afastava Dele. Criticava a Igreja nos
vários tópicos que ousava discordar, sem nunca ter tocado no catecismo ou sequer
procurado entender seu posicionamento, e buscava várias respostas para minhas dúvidas
em outras religiões. E foi nesse contexto que nossa fé foi colocada à prova de uma
maneira muito intensa.

O que aconteceu dali para frente não aconteceu num clique, não foi de uma hora para
outra. De novo, não foi num passe de mágica. Mas, aos poucos, Deus foi nos
conduzindo por um longo processo de mudança
. O hábito de rezar todo dia passou a ser
uma necessidade, lógico que primeiramente motivada pela necessidade de pedir pelo
Arthur. Mas, quando nos colocamos diante Dele com o coração escancarado como o
nosso se encontrava, totalmente cientes da nossa impotência diante da situação, Ele
encontra uma brecha e vai nos moldando.

Com a necessidade de rezar veio junto a de conhecer melhor Aquele para quem tanto
suplicávamos. E nos debruçamos sobre o Evangelho. Eu já havia lido trechos, conhecia
alguns das missas, palestras e coisas do tipo. Mas nunca havia lido do início ao fim.

Principalmente: nunca tinha lido buscando aplicar de fato na minha vida aquilo que eu
estava lendo. Foi engraçado perceber como muito do que estava escrito lá tinha passado
batido uma vida inteira para mim. Será que eu não havia lido ou ouvido aquela
passagem? Ou será que eu tinha de alguma maneira escolhido não ouvir?

Há pouco tempo li no catecismo uma frase do Papa Pio XII, extraída da ENCÍCLICA
HUMANI GENERIS, que jogou luz sobre esse tempo tão nebuloso da minha vida e
sobre porque, mesmo tendo vivido algo tão marcante como o Emaús, eu segui
caminhando no erro. A frase fala sobre como é difícil ao homem adquirir as verdades
que se referem a Deus, posto que estas, quando entram na prática da vida humana,
exigem o sacrifício e a abnegação própria, e conclui que:

“Isso faz com que os homens, em semelhantes questões, facilmente se persuadam de ser falso e duvidoso o que não querem que seja verdadeiro.”


Eu havia fugido de todo tipo de abnegação e sacrifício uma vida inteira. Sempre que
possível, havia escolhido o caminho mais fácil e conveniente para mim.
Não me admira
pensar que eu tenha ouvido a Verdade e escolhido fechar meus ouvidos por
simplesmente não querer aplica-La na minha vida. O chamado de Cristo é claro e está
estampado por todos os cantos do Evangelho: a Cruz.

As sete palavras de Jesus na cruz - Centro Loyola

Quem quer segui-Lo precisa se acostumar com a ideia da Cruz, com a ideia da renúncia de si mesmo e do sacrifício. Mas eu quis bater o pé e acreditar que não precisava ser assim. Até que me vi diante da minha própria Cruz.

E o que mais me admirou foi descobrir que, mesmo tendo virado as costas para Ele várias e várias vezes, mesmo tendo escolhido reiteradamente me separar Dele puramente por egoísmo meu, Ele estava ali, pronto para carregá-la junto comigo. E até mesmo, por diversas vezes, carregá-la por mim, comigo em Seus braços.

Esse Amor tão profundo e gratuito me desarmou por completo e fez nascer em mim
uma sede insaciável de conhece-Lo cada vez mais e mais. E foi quando os livros
religiosos entraram na minha vida.

Eu sempre tive o hábito de ler e costumava devorar livros com muita facilidade. Mas nunca havia lido nenhum desse tipo. E de lá para cá, não houve um livro que eu pegasse nas mãos que não fosse com tema religioso. Vida dos santos, histórias de conversão, livros escritos por padres, papas e teólogos. Livros sobre a vida e Paixão de Nosso Senhor Jesus, sobre Nossa Senhora, a Santa Missa, as Sagradas Escrituras e a doutrina da Igreja.

Perdi as contas de quantos eu li e quantos foram acrescentados à lista dos que quero ler – e que parece crescer a cada dia. Dos livros vieram cursos, meditações diárias, vídeos, perfis de redes sociais, e por aí vai. Foi um caminho sem volta no qual me vi inundada por um conhecimento tão claro e acessível que vira e mexe me pego pensando perplexa como pode passar tão batido aos olhos do mundo. E mais, como eu posso ter vivido tanto tempo fechando meus olhos para tudo isso.

Mas, finalmente, com os olhos desvendados, me vi envolta por todo esse conhecimento. E com ele veio o amor. Me apaixonei perdidamente não só por Cristo e
seus ensinamentos, mas pela Sua Igreja.
Quando finalmente eu me deixei guiar pela
Verdade, não houve nada mais em mim que desejasse resistir, por mais que me custasse
algum esforço ou desapego. E a cada novo conhecimento adquirido, vejo uma mudança
brotar em mim. E há ainda tantas, tantas mudanças mais que eu gostaria que
acontecessem, que às vezes sinto que nem sequer saí do lugar, mesmo sabendo que a
Manu que um dia existiu há muito ficou para trás.

Quando me pego pensando na frase da minha amiga, que não consegue me imaginar
diferente do que sou hoje, me vejo pensando nos amigos que me conheceram antes da
minha verdadeira conversão. Eles não devem me reconhecer mais, da mesma maneira
que os atuais amigos não me reconheceriam se cruzassem comigo na rua há alguns anos
atrás.

Duas Manus e um caminho bem tortuoso no meio delas.

Um caminho que tinha tudo para ser reto quando decidi subir o Morro rumo a Emaús. E poderia ter sido, se eu tivesse percebido que fazer parte de um grupo não era garantia de nada e que, além disso, eu devia ter buscado trilhar meu caminho individual, crescendo na fé e junto contribuindo para o crescimento do próprio Movimento. Poderia ter sido reto se tivesse, como na parábola do semeador, não apenas ouvido a Palavra, mas compreendido; e
entendido que para compreender é preciso esforço, estudo e dedicação diários.

Teria sido reto se eu tivesse enxergado que a minha opinião é nada diante de um Deus que se fez homem e se doou por amor, e diante daquilo que Ele mesmo instituiu e que se
mantém de pé por quase dois mil anos, sustentada por incontáveis santos, mártires,
doutores e teólogos. Poderia ter sido reto, nem um pouco tortuoso e não ter me custado
tão caro.

Ah como eu gostaria que nenhum caminho precisasse ser assim tortuoso, que
não precisasse custar tão caro a ninguém. Mas os caminhos de Deus são sempre
perfeitos.

Quem sabe o meu caminho torto não posso ajudar de alguma forma a endireitar tantos outros…

Manu Biz

A Manu do Gui, mãe do Arthur, da Malu e da Letícia. Peregrina neste mundo, em busca do rumo certo que leva ao céu.

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