Que não nos falte poesia

…Creio em Ti ao ver que a chuva cai e faz a flor nascer,

Creio em Ti pois sei que enquanto é noite aqui é dia ali.

Creio em Ti porque me deste o riso e a dor, me deste o amor do meu amor

Cada vez que nesse mundo eu escutar alguém cantar, alguém chorar, direi então Creio em Ti…

Sentei aqui no sofá para escrever esse texto. Liguei uma playlist para me ambientar, e essa foi a primeira música que tocou, no modo aleatório, dentre as 112 músicas que estão ali. Que Graça! Essa é minha música favorita, justamente porque fala da manifestação do divino em meio ao ordinário e cotidiano. Vocês conseguem ver um dedinho de Deus aí? E é sobre isso que vim falar aqui, a presença de Deus nas pequenas coisas.

Antes de continuar, acho que é de bom tom me apresentar. Meu nome é Amanda (mas a maioria me chama de Amandinha). Fiz o 98º Emaús em 2016, participo dos grupos São Francisco de Sales, Nossa Senhora de Fátima, Grupo São Valentim de namorados e também do departamento de Liturgia e de Artes.

A contemplação de Deus nas pequenas coisas é, sem dúvida, uma herança da minha mãe. Desde pequena ouço ela agradecer pela cama antes de dormir, e também agradecer tanto pela chuva que cai em um dia nublado quanto pelos raios de sol que entram na sala de manhã cedinho. Pelo café quentinho que toma de manhã, ou pelo mar nas vezes que vamos à praia. Ouvir um “Obrigada, meu Deus, por…” é comum pra quem convive com ela, e se tornou uma marca registrada dela aqui em casa. Ela sempre externalizou, na fala, esses agradecimentos e contemplações, o que acabou por se internalizar em mim depois de tanto tempo ouvindo.

Quando era menor, eu pensava nessa atitude dela como “um jeito mais positivo de ver a vida”. Realmente, ela é bem positiva diante da maioria das situações. Mas à medida que fui crescendo, e amadurecendo, percebi que era mais do que isso. Era poético, ela conseguia olhar para uma situação cotidiana, olhar para a chuva e não ver só chuva. Nas últimas semanas uma frase vem me “perseguindo”, me deparei com ela várias vezes e acredito ser providencial.

É uma frase da Adélia Prado que diz assim:

“De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho para pedra, vejo pedra mesmo”.

A contemplação de Deus nas pequenas coisas nos exige poesia. Assim como a flor no canteiro, a chuva cai para todos da mesma forma e para muitos pode ser só mais uma chuva, só mais uma flor. Mas, para aqueles que possuem uma certa dose de poesia, aquela mesma chuva, aquela mesma flor pode ser um telegrama enviado direto do Céu.

Existe uma frase do Chesterton, que inclusive marcou o início de uma das amizades mais especiais que Deus me deu, e emoldura perfeitamente o que falei, ela diz assim:

“Talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo”, e todas as noites à lua: “Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna as margaridas todas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las.”

Quanta beleza e doçura há nisso, pensar que cada detalhe que circunda nossos dias foi pensado individualmente, e com muito carinho, por Deus. E que, se observados com atenção e cuidado, podem nos dar a delícia de um gostinho de Céu em meio a um dia comum nesse mundo. É certo que essa poesia vem acompanhada de uma certa pureza e olhar centrado no agora. E para isso é necessário estreitar nossas semelhanças às crianças, símbolos da pureza.

Afinal, não são as crianças, campeãs em achar animais inusitados nas formas das nuvens, ou nos presentear com um “te amo” escrito com letra tortinha em um pedacinho de papel rasgado? Não são elas mestres em viver o agora? Quanta poesia em pessoas tão pequenininhas! E Deus sopra essa dica aos nossos ouvidos ao dizer que o reino de Deus é daqueles que a elas se assemelham.

É certo que as turbulências do mundo muitas vezes engolem essa poesia, e as preocupações tornam um pouquinho mais difícil essa presença no agora. E por isso é necessário um esforço maior do que o das crianças para, todos os dias, lembrar-nos de que “Deus sempre está bem perto de nós”. E assim, com essa intenção e esforço, enxergar Ele pelo caminho e em cada ação que desempenhamos. Vale até um post it para ajudar a lembrar naqueles dias mais turvos!

Falando em dias turvos, enxergar o divino nas pequenas coisas já me salvou de muitos dias em que a aflição tomava conta. Nessas ocasiões, Ele com um jeitinho todo especial me visita cruzando meu caminho, na grande maioria das vezes, com uma margarida (minha flor favorita) ou com uma borboleta.

Para exemplificar: certo dia, estava eu envolta em minhas aflições (as quais nem lembro mais quais eram) andando pelo centro da cidade, até que ao passar por uma rua me deparo com o maior canteiro de margaridas que já vi plantado, e aquilo me fez sentir o toque do dedo de Deus em meu coração.

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Outra vez, na UFSC, em um outro dia bagunçado, ele me presenteou com uma borboleta a pousar nas minhas costas enquanto eu andava para um rápido almoço. Tenho fotos desses dois dias, e isso faz parte de um costume que desenvolvi nos últimos anos, quando me ocorre de perceber Deus em algum detalhe registro com uma foto, pode ser da flor, do céu, da borboleta, enfim, do que me lembrar Dele. Uso como lembrete, para visitá-las em dias em que tudo parece meio desencaixado. Funciona! Devolve o calor para um coração que já estava ficando frio.

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Esses dias me deparei com uma frase no filme Sissi (um filme mais antiguinho) que resume perfeitamente o que falei ali: “Lembre-se de uma coisa minha filha: quando tiver problemas ou estiver aflita, caminhe pelo bosque com os olhos bem abertos. Na árvore, no arbusto, na flor e no bicho… você perceberá o poder de Deus e Ele lhe dará consolo e forças.” Ele está em todo lugar, até na florzinha brotando entre o asfalto e a calçada, a nos trazer a alegria própria do Céu em meio a turbulência própria do mundo.

Por fim, Deus nos faz um escancarado convite à poesia ao se esconder em um pedaço de pão. Ele, que é o Extraordinário, se manifesta no mais ordinário. “Talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia.”.

Ele exulta na monotonia, como um grito de alegria a nos lembrar que não pertencemos a este mundo! “Se fôsseis do mundo, o mundo gostaria daquilo que lhe pertence. Mas, porque não sois do mundo (…)” (Jo 15:19). Ele se esconde no pão para lembrar-nos que pode não ser uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais, que a pedra pode não ser só pedra e que, definitivamente, aquele Pão não é só pão.

Que não nos falte poesia!

Amanda Nascimento

Estudante de Odontologia na UFSC, apaixonada pela família que Deus me deu, namorada do Vitor e admiradora das amostras de Deus nas pequenas coisas.

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