A Fé em Parintins

Sob a Bênção da Virgem do Carmo

Parintins se desdobra e reluz

Ao afago do Rio Amazonas,

Encimada do sol e da cruz

Parintins, meiga flor do Amazonas

Doce mimo das mãos do Senhor,

Terra virgem por Deus escolhida

Para berço de luz e de amor.[…]

 

Com esse trecho do Hino de Parintins, podemos ver que a FÉ está presente na veia de seu povo, tendo Nossa Senhora do Carmo como sua padroeira, talvez uma das únicas cidades, onde seu hino é uma verdadeira declaração de amor a Nossa Senhora do Carmo e gratidão ao construtor do nosso universo: Deus.

Mas onde fica Parintins? Uma ilha no coração da Amazônia, cidade pequena, com cerca de 110 mil habitantes, distante a 369 km da Capital Manaus, onde só é possível chegar por meio fluvial; 20 horas de viagem; ou aéreo; 1 hora de voo; a partir de Manaus, onde as estradas que levam à ilha são os rios, sendo assim, distante.

A população de Parintins é em sua grande maioria católica, a Igreja está presente nesse município desde o século XVII quando os primeiros missionários jesuítas chegaram na região. Em 1955, chegavam a Parintins os missionários do PIME; assim, a igreja católica ampliou sua presença no Médio Amazonas com a criação da Prelazia de Parintins que abrange outros 5 municípios do Amazonas mais próximos a ilha. Esses missionários tinham como objetivo criar a igreja local; no entanto a missão deste instituto era orientada pela Santa Sé, dessa forma os padres estavam alinhados com o catolicismo romanizado, e até hoje missionários do PIME tem presença forte na cidade, assim, o Papa, desde então acompanha diretamente os trabalhos desenvolvidos por lá.

Falar sobre fé em Parintins é também falar de história,  Parintins é marcada pela grande demonstração de devoção à sua padroeira, Nossa Senhora do Carmo, onde todos os anos no período de 6 a 16 de julho é realizada uma grande festa em honra a Virgem do Carmo. São dez dias de celebração com muita dedicação e amor. 

É 6 de julho, acordamos com a uma grande “alvorada festiva” nas primeiras horas do dia, antes do sol raiar, uma centena de fiéis, um carro de som ou trio elétrico, percorre toda a cidade sob cantos e louvores, fogos para saudar e anunciar que é festa na cidade, que os dias de homenagens a nossa mãe Maria chegaram e convidando à todos a receber a imagem peregrina de santa, depois de percorrer da Capital Manaus, municípios vizinhos e todas as comunidades ribeirinhas pertencentes à diocese, no cais do porto da cidade.

São dez  dias intensos, com missas diárias, novenas em honra a padroeira e uma programação social diária, visando arrecadar fundos à diocese para manter seu trabalho social durante o ano todo, como escolas, hospitais, postos de saúde e outros que atendem à população.

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Foto: Catedral de Nossa Senhora do Carmo em Parintins durante a festa, tem forma de Cruz e inspirada na arquitetura Italiana da época. Fonte: TripAdvisor Divulgação

Um andor para a imagem é confeccionado para o círio de encerramento. Para isso acontecer, em uma das primeiras celebrações da festa, há uma missa específica, conhecida “Missa das Flores”. O momento do ofertório é dedicado a coleta das flores que serão utilizadas, no lugar das tradicionais coletas monetárias, é solicitado dos fiéis a oferta de flores e que prontamente são utilizadas pelos artistas que se dispõe a confeccionar o andor.

No dia 15 é realizada a Romaria das Águas, onde pequenas e grandes embarcações cheias de fiéis percorrem a orla da Ilha pelo rio Amazonas e uma multidão acompanha mais uma bela homenagem na orla da cidade; uma imagem todos os anos é feita pelos artistas da cidade sobre uma balsa de carga, acompanhada de músicos entoando cantos marianos, todo percurso do rio com uma centena de candeias com velas flutuantes, confeccionadas por fiéis com material biodegradável completam o espetáculo, um dos momentos mais emocionantes e marcantes da Festa. No dia 16, dia de Nossa Senhora do Carmo, um grandioso círio é realizado atraindo milhares de pessoas pelas ruas da cidade.

Foto 1: Romaria das Águas de 2018
Foto 2: Imagem durante a sua confecção do ano de 2019, todo material utilizado provém de doações dos fiéis.

Minha vivência de Fé em Parintins

A vivência de fé na cidade, principalmente dos mais antigos, é explicada pela forte influência da Igreja na ocupação da cidade, catequizando desde o princípio os índios e os primeiros habitantes que ali chegaram de outras regiões e foi se perpetuando até os dias  atuais pelo prosseguimento de Missões evangelizadoras como a do PIME (Pontifício Instituto das Missões Exteriores).

Parintins tem outro diferencial que ainda não encontrei nos lugares que já visitei, tem uma missa no domingo de manhã na Catedral, dedicada às crianças. Toda as funções como dos coroinhas, leituras e cantos, são atividades realizadas por crianças da catequese, de até  12 anos em média.

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Foto: Coral Infantil em uma missa dominical

Nessa missa, o coral por exemplo, nada deixar a desejar para o coral dos “jovens e adultos”, sempre bem ensaiados e afinados, conduzem com muito carinho, assim desde cedo as crianças aprendendo o valor de uma missa.

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Foto: Crianças ajoelhadas durante a consagração da Eucaristia

Toda a celebração é adaptada, especialmente à homilia, com o celebrante usando de uma linguagem mais leve e informal, para melhor compreensão dos pequenos fiéis. Vê centenas de crianças lotando a catedral, acompanhadas dos pais, com olhos e ouvidos atentos à celebração e fazendo todos os ritos que já conhecemos, é uma experiência única. A receita da linguagem adotada, as crianças vendo que a missa é servida por outras crianças nas funções dá uma sensação de pertencimento à elas, o resultado, que a missa infantil no domingo de manhã é prioridade, antes de qualquer lazer rotineiro de um domingo comum.

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Durante anos que vivi e cresci em Parintins, vi que a influência católica na cidade é muito grande até os dias atuais. Estudei todo o ensino básico e médio em um Colégio administrado e orientado pela Diocese, o Colégio Nossa Senhora do Carmo,  onde o Ensino Religioso faz parte do currículo e tem como padroeiros, Santa Luiza de Marilac e São Vicente de Paulo, onde a trajetória e valores desses santos são aprofundados durante o ano letivo, uma coisa rara nos dias atuais em nosso ensino regular.

Nesses anos no “Colégio do Carmo”, aprendi a importância da caridade, do pensar no outro, na profundidade do poder da Fé para chegar em Deus. O diferente de estudar lá é que ao passo que na aula de Ciências era abordada a teoria de Darwin, os professores se preocupavam em deixar claro também a teoria criacionista, abordada em Gênesis, a que nós cristãos cremos, coisa que nos dias atuais nos grandes centros urbanos não teria uma boa aceitação da maioria, um professor defender algo somente baseado na Fé cristã e não somente só na ciência?! Porque não?!

Minha vivência na Igreja começou desde a infância, acompanhando meus pais nas missas e atividades da Renovação Carismática Católica. Eu vindo de uma família católica, frequentei desde a infância a catequese, aos 15 anos recebi um chamado a servir na Igreja, foi então que ingressei no Grupo de Canto Nossa Senhora do Carmo, coral responsável pela missa dominical noturna na Catedral até hoje, onde aprendi muito e descobri o prazer do orar cantando e lá fiquei até meus últimos dias como morador da cidade.

Os ensaios eram sempre às tardes de sábado, dia anterior a missa, onde os cuidados eram redobrados no que diz respeito a afinação e postura, para que tudo saísse o mais perfeito possível, num só capricho, pois a missa era e é, até hoje, transmitida pelas emissoras de rádio da região, que fazem aquela celebração chegar aos mais longínquos e inimagináveis lugares da amazônia, à população ribeirinha e até da cidade, para aqueles fiéis que por alguma enfermidade ou até mesmo idade, estejam impossibilitados de ir até uma igreja.

Se o mundo cristão tanto discute a comunhão espiritual hoje em dia devido ao atual momento, lá essa prática existe a décadas, quando se ver pessoas que não tem como ir até uma igreja para receber  a eucaristia, dobrar seu joelho em um oratório simples e ouvidos atentos na sintonia do rádio para acompanhar a celebração da missa.

Há relatos de comunidades ribeirinhas mais distantes, que até hoje, só conseguem receber a visita de um sacerdote uma vez ao ano, que em um mesmo dia, celebra sacramentos e confraterniza com aquela comunidade. Acompanhei uma vez, uma dessas visitas, foram 3 horas de barco pelo rio até chegar à uma dessas comunidades distantes da sede do município, acompanhado de algumas pessoas da missão e um Padre. Logo na chegada fomos recebidos com festa, por aqueles que tanto estavam aguardando por aquela, e talvez única visita no ano.

A comunidade tinha uma pequena capela, construída pelos próprios moradores que naquele dia iriam ter uma ocasião muito especial, iriam receber a eucaristia. Recordando essa história no momento que aqui escrevo, reflito que muitas vezes colocamos dificuldades, desculpas e motivos para não ir à uma santa missa, que certamente nós temos acesso a missa diariamente, se assim nos dispomos a receber essa graça todos os dias, e acabamos que muitos de nós não valorizamos por completo, por mais que nos esforçamos, o grande valor espiritual do acesso à eucaristia, e que talvez isso nunca aconteça, pelo simples fato de que ela é que nos leva ao Cristo, tendo uma beleza espiritual que vai além da perfeição, uma fonte inesgotável de amor e mistério, além da compreensão humana.

Na primeira vez que voltei a Parintins, após dois anos de ter saído da ilha, vi a festa do Carmo com outros olhos, valorizei mais aquilo que havia caído na rotina, e vi quão belo como tudo é festejado; o entrar da Catedral durante os dias, é uma sensação física e espiritual diferente, uma paz, um clima diferente no ar, como se ali estivéssemos cercados de seres angelicais acompanhando todo aquele em povo em festa em honra à virgem do Carmelo.

A principal diferença na vivência da fé em Parintins aos grandes centros é que a cidade demonstra sua fé com fervor e devoção, seja ela, nas solenidades litúrgicas, como o Corpus Christi, e principalmente na Festa da Padroeira. O empenho, o amor a Igreja você ver um fervor diferente da fé e único em Parintins.

Parintins é uma terra bendita

Refulgente de fé no porvir

É cidade pujante de vida

Com um povo a cantar e sorrir

Nela há jovens e tantas crianças

A caminho do bem e do amor.

São do amado Brasil esperança

São aurora de um mundo melhor.

 

Esse outro trecho do hino de Parintins, escrito pelo primeiro Bispo de Parintins, Dom Arcângelo Cerqua, que em poesia, resume como a fé é vivida nessa cidade, com simplicidade dos gestos e na riqueza do amor à Deus.

 

Paulo Afonso Filho

Trilheiro da natureza e da vida, primogênito da melhor família e devoto de São Miguel Arcanjo.

Fonte das fotos: Divulgação Catedral de Parintins

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