Minhas lembranças em Emaús

Cora Coralina em seu poema “Sou feita de retalhos” diz:

“Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior…Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade…Que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa.”

Falar das minhas lembranças de Emaús é fazer uma retrospectiva de fatos, fotos, atos, escolhas, convicções, desafios e caminhos que se comunicam, se entrelaçam e se completam. Confesso que é difícil citar todos aqui, e corro o risco de ser injusto e esquecer algo, mas vou tentar.

Bom, me chamo Erlon Ricardo da Costa, tenho 42 anos, fiz o 52 Emaús Masculino da Arquidiocese de Florianópolis, no ano de 1998. No mesmo ano, porém antes de mim, minha irmã caçula, a Yana, fez o retiro e abriu caminho na sequência para eu fazer.

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Das lembranças da minha experiência de Emaús começam pelas semanas que antecederam o curso. Apesar de eu ter dado meu sim, foram dias de ansiedade e expectativa. Passei pela entrevista com a ficha preenchida e assinada no verso pelo pároco da Paróquia a qual eu participava, pois diziam que indicação de padre tinha mais chance de ser selecionado para o curso. Passou uma semana e lá estava meu nome na lista dos “aprovados”, e ao lado uma lista significava de espera. Depois do retiro tudo isso teve sentido…

Na quinta feira, dia do embarque, o auditório do CAP estava cheio de gente “estranha” e desconhecida, até que vi ao violão Leonardo Momm (colega de caminhada da Igreja dos tempos de outrora). Pensei: se o Léo está aqui é porque a coisa é boa mesmo. E lá fomos para o Morro das Pedras.

Na primeira acolhida, no hall da casa, tive meu primeiro contato com o padre Monsenhor Bianchini. O próprio que em uma certa palestra me derrubou da cadeira, com seus olhos azuis da cor do manto de Nossa Senhora, transbordando de lágrimas, falava com um amor inexplicável de Jesus.

Ali disse pra mim mesmo: eu quero conhecer esse Jesus Cristo, eu quero ser amigo de d´Ele, eu quero caminhar neste caminho.. A partir daquele momento tudo fez sentido pra mim. A catequese apresentada no retiro não foi novidade para mim, pois eu já tinha uma caminhada na Igreja graças aos meus pais. Mas os testemunhos e a forma polida, fundamentada e esclarecedora que me foi apresentada, essa sim, foi inédita, única e inesquecível.

Após o curso surgiu um novo Erlon, com vontade de perseverar, com coragem de encarrar os desafios, mais aberto e comunicativo, tropeçando e levantando, fortalecido na fé e buscando pelos meios de perseverança fazer diariamente do quarto dia uma estalagem de Emaús. Aprendi a ler a Bíblia e meditar a Palavra de Deus, reaprendi a rezar, trouxe para minha vida a prática da reconciliação constante com Deus através da confissão e a participação semanal nas missas e receber a Eucaristia.

“Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18,20).

E assim começou a minha caminhada de Emaús, reunido com outros irmãos e irmãs. Saí do retiro e já entrei no Grupo Santa Rita de Cássia, orientado pelo querido casal Cristiani e Edson Cechinel. Fiquei no grupo por mais de dez anos, e durante toda minha permanência o casal deu seu testemunho vivo de fé e perseverança. Muito acolhedores, firmes no propósito, sempre presentes em todas …TODAS as atividades do grupo e no movimento.

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Uma das muitas lembranças que eles nos ensinaram é que todo encontro do grupo começava e terminava em oração. Se tínhamos uma festa para ir, antes tínhamos de ir na missa de sábado a noite na Igreja da Conceição. Falando em missa, todo Oasis que o Santa Rita fazia, sempre tinha uma missa, no local do encontro, ou na comunidade próxima. As reuniões de domingo à noite eram prioridade do grupo, só não tinha reunião do grupo quando tinha missa de chegada e quando o Natal caia no domingo.

Fora isso, até no dia das mães e dos pais tinha reunião do grupo. Com isso aprendi o que é priorizar as coisas de Deus. O grupo passou, mas a amizade permaneceu, até hoje há um vínculo, um amor… e mesmo que estejamos espalhados pelo Brasil e até pelo mundo, há esse carinho guardado no coração que só quem passou pelo Santa Rita sabe explicar. Também não posso deixar de citar que no começo da minha caminhada de grupo às vezes eu passeava pelo grupo Santo Agostinho. Ali encontrava profundidade nas reflexões sobre o Evangelho, na voz do tio Bira e da tia Nick. Foi um tempo curto e que aprendi muito com eles e lá fiz muitos amigos.

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Na sequência passei um ano pelo grupo São Paulo, onde pude viver experiências de espiritualidade e entendimento do Evangelho. Guardo com muito carinho um momento único de ter participado de uma das últimas reuniões com o jovem Marcelo Henrique Câmara. Lembro que ele já bem debilitado apareceu de surpresa no encontro e como um raio de luz iluminou o ambiente, nos enchendo de graça e sabedoria.

Também guardo boas lembranças das inúmeras atividades que participei com o grupo no movimento e outras vinculadas à Igreja.

Faço memória de algumas, como: as festas do Divino da Irmandade do Divino Espirito Santo, as Feiras da Esperança, eventos beneficentes,  visita à asilo, campanhas de arrecadações, liturgias e missas,  recreação e orientação religiosa com crianças carentes. As missas do Emaús nos sábados a noite e as Escolas Missionárias de toda terça feira eram os pontos de encontro do movimento. Além disso a participação no Secretariado me ensinou muito a entender o papel dos leigos na Igreja. E claro, não menos importante trago aqui também as boas lembranças de trabalhar nos cursos de Emaús em colaborar para que mais jovens pudessem conhecer Jesus Cristo e a Igreja que eu conheci.

“Quando acabou de falar, disse a Simeão: avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca” (Lc 5,4).

Desde o ano de 2011 estou caminhando com o grupo Monsenhor Bianchini, sob a orientação da Myrian Paulo Hermes, somos semanalmente provocados e motivados a aprofundar nosso conhecimento e entendimento das coisas de Deus. Avançar na fé, avançar na perseverança, avançar em uma vida de oração, e desejar o céu. Crer que a morte não é o fim, e desejar ardentemente estar na glória de Deus, com os anjos e santos.

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Nessa caminhada aprendi a julgar menos, a olhar para um morador de rua e antes de pensar qualquer coisa a respeito dele, ter a consciência de que ele não tem um teto e eu tenho um lar, eu tenho comida na mesa e ele tem fome. Vejo que é meu papel de cristão ajudá-lo, porque na face sofrida dele vejo o Cristo.  Aprendi que o remédio para alma de um enfermo pode estar em visita-lo no hospital e levar uma palavra de conforto, fazer com ele uma oração, segurar sua mão, trocar um dedinho de prosa e se despedir com um abraço fraterno são gestos concretos de caridade.

Sou administrador de empresas e atualmente trabalho na administração da Cúria Metropolitana de Florianópolis. A Cúria é o órgão que administra a Arquidiocese de Florianópolis.

Há sete anos saí do meio corporativo, e aceitei o desafio de entrar na gestão do terceiro setor. Administrar os bens da igreja implica no mesmo cuidado que qualquer outra organização exige e necessita, porém com um “plus” a mais, pois o patrimônio da igreja é fruto da oferta do fiel.  É gratificante trabalhar aonde eu alimento a minha fé, mas ao mesmo tempo é necessário um discernimento de que ali sou um profissional. O que muito me alegra é que tenho próximo a minha sala uma pequena capela, com o Santíssimo, e ali diariamente passo para dar um “oi” para Jesus. Passo para pedir, para agradecer, para entregar a Ele aquilo que não dou conta.

Viver a fé, é um exercício diário, como falei antes, são acertos e tropeços. A reconciliação com o próximo, e com Deus. Para mim a confissão é o caminho da graça, do perdão, lava e purifica a minha alma. Diante das minhas angústias, minhas misérias, daquilo que não consigo alcançar e que só Deus sabe, me volto também a Nossa Senhora. Peço à Maria, mãe da Igreja, a sua intercessão. Aprendi com meus pais a rezar para mãe de Deus. E em tempos de pandemia, em que vivemos um medo latente, uma incerteza de como será o amanhã, vem o seguinte questionamento: como viver a fé, como não desanimar, como não fraquejar?

E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14,31).

Falo por mim, sei que devo ser prudente, porém não ser covarde. Na história dos mártires e santos trago a história de São Tarcísio, padroeiro dos coroinhas, acólitos e cerimoniários. Aos doze anos abraçou corajosamente a piedosa tarefa de levar as hóstias (escondidas em uma caixinha de prata) aos cristãos presos e condenados a morte, por conta da perseguição do imperador Valeriano aos cristãos. 

No caminho ele foi descoberto pelos guardas, mesmo indagado do que levava ele negou terminantemente, entretanto, não acreditaram nele e o corajoso menino foi brutalmente morto. Citei essa história para dizer que devemos ter fé, devemos ter coragem, somos filhos e servos de Deus, e Ele nos quer perto Dele. Nesses tempos difíceis, de distanciamento social, de isolamento, de reclusão, somos tentados a tantos exageros já que estamos na maior parte do tempo em casa. Mas me pergunto, e a farta mesa eucarística, a comunhão, estamos desejando, estamos nos alimentando dela nesses tempos?

Trago novamente Nossa Senhora, que tão corajosamente deu o seu sim para ser a mãe do Filho de Deus. A Myrian costuma citar São Luís Maria Grignion de Montfort nas reuniões do grupo, e diz assim: que Jesus veio ao mundo por Maria e por ela deve voltar no fim dos tempos:

“Ela deu Jesus Cristo ao mundo a primeira vez, a há de fazê-lo resplandecer também na segunda vez” (TVD 13).

Então a exemplo de Maria nós devemos ter coragem, são tempos difíceis, mas não podemos fraquejar, e temos que ajudar a manter a Igreja viva, de pé. A Igreja necessita de nós para manter as portas abertas, como braços estendidos para um abraço fraterno.

A caminhada ainda não encerrou, mas muita coisa já deixam saudades, como dizia Monsenhor Bianchini:

“Saudade é a doce e suave presença de uma ausência”.

Que doces lembranças.

Shalom!!!

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Erlon Costa

Filho do Moacir e da Tina, irmão do Yuri e da Yana, devoto de Santa Rita de Cássia, um cara que valoriza as amizades.

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