Como era Marcelinho Câmara na faculdade?

Dias atrás um colega da nossa turma 97.1 da faculdade de Direito da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) encaminhou para o grupo de Whatsapp uma recordação magistral: a foto do listão dos aprovados no vestibular de 1996. Lá estava o nome do nosso Servo de Deus na turma de Direito diurno: Marcelo Henrique Câmara. Imediatamente pensei:

“Uau! Temos um candidato a santo que prestou vestibular e cursou a faculdade, que tesouro para os jovens do nosso tempo!”

Quis a Providência que eu conhecesse o Marcelo muito antes da faculdade. A primeira vez que estudamos juntos foi no ano de 1985, quando tínhamos apenas seis anos de idade. Ali eu já percebia a sua diferença. Uma criança que se interessava por assuntos muito avançados para o seu mundo infantil. No ano seguinte ele mudou de escola e só voltaríamos a conviver a partir do ano de 1997.

Desde a primeira fase da faculdade ele já revelava uma cultura e um conhecimento desconcertantes. Aliás, logo nos dias iniciais ele foi o único a escapar do “trote” aplicado pelos veteranos pois ao invés de ficar aproveitando o horário livre (por falta de professores), foi assistir a palestra de três professores italianos que estavam ministrando um colóquio para turmas mais avançadas. Marcelo era singular, mesmo.

As afinidades entre os colegas foram surgindo e criou-se um pequeno grupo que passava as tardes de sexta-feira no Beiramar Shopping se divertindo com o cinema, praça de alimentação e bares. Marcelo participou umas duas vezes, apenas, depois não foi mais. Era demais para ele desperdiçar uma tarde inteira por semana, sendo que tínhamos muito a estudar… Sua responsabilidade. Sempre teve prioridades!

Já eram perceptíveis nele muitas virtudes. Mas também era claro que defendia seus pontos de vista com muito rigor, aparentemente movido por convicções ideológicas.

O colega Samuel Naspolini assim retrata o Marcelo naquela primeira fase do curso:

Extremamente fluente, desde as primeiras semanas do curso Marcelo envolvia-se em debates contundentes, externando opiniões com as quais não concordava. “Temos um neoliberal na classe, que horror”, era o meu pensamento, não sem um ponta de admiração pela coragem demonstrada pelo colega ao levantar bandeiras minoritárias no ambiente universitário. Minha percepção refratária desapareceu pouco depois quando casualmente nos encontramos na Biblioteca Universitária. Foi uma tarde ótima, na qual, além de realizarmos a pesquisa, trocamos ideias sobre a universidade, o curso, o país, enfim, tudo. Afável e inteligente, Marcelo não tentava impor sua forma de pensar e demonstrava profundo respeito pela opinião alheia. Vascaíno – prova adicional de inteligência – e avaiano – porque ninguém é perfeito –  transbordava entusiasmo, amor à vida e ao conhecimento. Tive a nítida impressão de que, se pudesse, ele viveria feliz dentro da biblioteca.

Sem dúvidas, Marcelo seria um jurista brilhante. Mas os planos de Deus para ele eram ainda mais elevados. Não somente um intelectual defensor de um humanismo secularizado, mas um seguidor do humanismo integral, que abraça todas as dimensões da vida humana e encontra a fonte da sua dignidade na filiação divina, na identificação com Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Como enunciou o Concílio Vaticano II, “na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente” (Gaudium et spes, 22).

Assim Deus o fez encontrar em uma tarde de sábado, o Monsenhor Francisco de Sales Bianchini. Ainda que contrariado, Marcelo aceita fazer a experiência do Curso de Valores Humanos e Cristãos do Movimento de Emaús em Florianópolis. A partir de agosto de 1997, depois de uma fortíssima conversão, começa a escrever os capítulos mais encantadores da sua existência: “tudo à luz de Cristo parecia tão diferente, mais belo, mais cordial, mais pleno de significado. Era tudo tão simples!”.

O dom da fé enriqueceu a pessoa do Marcelo com uma luz especialíssima, apurando o seu discernimento, purificando seus critérios, fazendo-o caminhar a passos largos e rápidos na direção da verdade.

Falava de Deus e da alegria da vida cristã com naturalidade e entusiasmo para os colegas. Convidava muitos a fazerem a experiência de Emaús. Defendia com firme convicção e serenidade a Santa Igreja sempre que era alvo de críticas injustas. Não tinha receio de expor sua identidade cristã, de dar testemunho, na sala de aula, nos intervalos, nas confraternizações. Sua presença foi marcante.

Uma manhã escutei Marcelo falar em uma roda de amigos, no intervalo das aulas na lanchonete: “Jesus é a pessoa mais importante para mim.” Pronto. Foi suficiente. Foi eficaz. Foi penetrante. Fui até ele e pedi para que me inscrevesse no Curso de Emaús. O início de uma conversão.

O seu encontro com a espiritualidade de São Josemaria Escrivá, intensificado a partir de 2002 foi decisivo para confirmar a vocação laical (leiga), seu chamado a ser santo nas realidades temporais e cotidianas da vida. A ser um missionário na vida ordinária, na atividade profissional.

Aplicava-se ao máximo em seus estudos, preparava com propriedade seus trabalhos e apresentações, era assíduo e pontual, permanecendo até o final das aulas mais cansativas e das matérias consideradas menos importantes. Estudava muito, muito mesmo, e fazia-o com espírito de oração, com sentido redentor. Encontramos em seus cadernos e livros pequenas jaculatórias escritas em latim, comprovando que os tempos de estudo eram também repletos da presença de Deus.

Mas não era apenas pelo dom da inteligência que Marcelo impressionava. Seu sorriso bondoso era a mais pura expressão externa de caridade. Jamais se ouviu que tenha falado mal de alguém. Estava sempre disponível para escutar quem precisasse. Gostava de dar carona levando até em casa alguns colegas que não tinham carro. Mais uma vez, o colega Samuel Naspolini relembra um episódio marcante:

Marcelo era extremamente solidário com seus colegas, apoio firme em todos os momentos. No Programa Especial de Treinamento(PET), cada aluno encarregava-se de organizar uma palestra, aberta a toda comunidade, sobre um tema socialmente relevante. No evento organizado por mim, o palestrante confirmado não apareceu. Marcelo percebeu meu constrangimento, esteve comigo quando anunciamos que o evento não seria realizado, e me ajudava a desmontar toda estrutura quando alguns amigos começaram a conversar sobre a obsolescência do casamento no mundo moderno. De súbito, para espanto geral dos poucos que ali restavam, Marcelo passou a dissertar para ouvidos incrédulos sobre a sacralidade do matrimônio e a atuação da graça divina como suporte à felicidade e à fidelidade dos cônjuges.

Marcelo participou das festas e confraternizações? De muitas. Mas também sabia muito bem rejeitar atividades e comportamentos que não condizem com um cristão: “não convém” era a expressão que ele utilizava para essas ocasiões.

Seu grande ideal de vida era, sem dúvidas, identificar-se plenamente com Cristo, ser um outro Cristo, alter christus, no meio do mundo. Vemos que as obras realizadas pelo Marcelo eram simples, comuns, ordinárias. Mas, esse conjunto de pequenos atos realizados com constância, na perfeição da caridade, vão forjando uma alma enamorada de Deus.

Assim, é motivo de ânimo para todos, especialmente para os jovens, saber que o caminho de santidade do Servo de Deus Marcelo Henrique Câmara também passou pela via comum da faculdade!

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Maria Zoê Espindola

Apaixonada pela Santa Igreja Católica, pela Igreja doméstica e pela vida dos Santos!

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