Existe um sentido no sofrimento

 O texto que planejei escrever aqui não tinha nada de pessoal. A proposta desse convite foi que eu abordasse algum tema dentro da minha área de formação, a Psicologia, sob uma ótica cristã. Talvez colocar “uma historinha ou outra contada” para ilustrar as reflexões. Mas, céus, que historinha eu poderia contar?

peleo.jpgTentei buscar um pouco de inspiração na fonte que sempre me abastece: meu amado Padre Léo. E bastou uma frase dele para que tudo fizesse sentido: “Existe uma beleza escondida em cada fase da nossa jornada”. Pois bem…

Já que entraremos em aspectos pessoais, acho legal me apresentar primeiro. Meu nome é Amanda. Fiz meu retiro do Emaús em 2018 e hoje participo do grupo Monsenhor Bianchini, do Departamento de Artes e do Pré-Emaús. 

Minha vida sempre foi boa: cresci em Curitibanos, cidadezinha fofa e tranquila no coração do estado, que tem um pôr-do-sol de tirar o fôlego. Fui criada por uma família muito amorosa. Nunca passamos por apertos financeiros, tive oportunidade de estudar em um colégio bom e cresci sempre rodeada de muitos amigos. Apesar de amar todos eles, tinha os meus melhores contados nos dedões. Com esses eu dividia absolutamente tudo – alegrias, aflições, dúvidas, segredos, conquistas, misérias; minha alma todinha, sem medo algum. E sempre foi recíproco, graças a Deus.

 A vida era tão boa que eu não conseguia imaginar o Céu sendo melhor que aquilo, sinceramente.

Mas isso mudou em 31 de agosto de 2010.

Lembro perfeitamente: era terça-feira, dia que tínhamos aula o dia todo no colégio. No intervalo do meio-dia ouvi uma amiga comentando com outra, dando risada: “Soube do Egídio?” – estavam falando do meu melhor amigo. Achei estranho, mas não dei bola. Não devia ser nada de mais.

Segui rapidinho para o carro, afinal, tinha pouco tempo para ir almoçar e voltar para a aula.

Mal pisei em casa, o telefone tocou. “Amanda, é pra você”. Atendi:

  • Alô?
  • Amiga… O Egídio se matou.

Essa frase ecoou na minha cabeça pelo que pareceu uma eternidade – mas foram milésimos de segundo. Enquanto eu tentava inutilmente processar o que tinha acabado de ouvir, deixei o telefone caído no chão e saí voando da minha casa. Encontrei minha melhor amiga na esquina, demos as mãos e corremos juntas para a casa dele, a uns 4 quarteirões dali. 

“Só pode ser zoeira. Qualquer um faria isso, menos o Egi! Sempre rindo, sempre alegre daquele jeito, certeza que está tirando uma com a gente. Não tem a menor chance de que sej…” – mas lá estava o furgão do SAMU, estacionado de ré na garagem, removendo seu corpo sem vida suspenso por uma corda amarrada no pescoço e exterminando qualquer pensamento de negação que eu vinha alimentando até então. O Egi tinha, sim, cometido suicídio. E não havia -nem nunca mais haveria- nada que eu pudesse fazer para mudar esse fato. Eu o havia perdido para sempre.

A dor que senti naquela hora foi intensa. Pensei em vários adjetivos e analogias para tentar descrever aqui para vocês, leitores, em vão.

Doeu por dias. Semanas. Meses. Eu comecei a ver as pessoas continuando suas vidas. Setembro foi meio estranho. Em outubro, porém, tudo já estava exatamente como antes no meu círculo de amigos. A vida seguiu! Mas ele não estava mais ali e eu parecia ser a única que ainda sofria com aquilo. Pensava nele dia e noite. Visitava o cemitério todos os dias. Escrevia cartas, tentava entendê-lo. E quanto mais eu tentava… mais conseguia. Esse foi o problema:

Não tardou para que eu começasse a ter ideações suicidas também.

Dezembro chegou e eu sequer prestei vestibular, não tinha condições emocionais. Fiquei o ano de 2011 inteiro em casa, tentando me recuperar. A saga da psiquiatria descriteriosa é assunto para outro texto; mas o fato de eu participar da JUCE, grupo de jovens franciscanos da minha cidade, foi fundamental para que o pior não chegasse a acontecer de fato – mais adiante vocês entenderão o porquê. Em 2012, aí sim: passei no vestibular, mudei para Floripa, comecei a cursar Psicologia, me formei, fiz mestrado, comecei a trabalhar, namorei por 5 anos no meio disso, fui seguindo a vida, hoje estou aqui. Ufa 🙂

É a primeira vez que toco no assunto abertamente porque sei da dificuldade (e até do julgamento) que a maioria das pessoas têm perante o suicídio. É normal. Se você está nessa maioria, espero de coração que meu depoimento lhe ajude a repensar, apesar de ser complexo explicar o quão convincente essa “saída” parece ser. Acreditem em mim. Nenhum argumento, do mais espiritual ao mais pragmático, parece suficientemente forte perto da ideia sedutora de dar um “fim definitivo” ao sofrimento para quem tem ideação suicida. É como se a racionalidade fosse perdida e você não conseguisse ver nada, nada, nada além disso; mesmo sabendo que não é a saída. Foram anos lutando contra meus próprios pensamentos e eu estaria mentindo se dissesse que atualmente não tenho mais ideações, embora agora consiga lidar bem com elas.

O como é, finalmente, o propósito do texto:

Existe um sentido no sofrimento.

viktor

Quem concluiu isso foi o médico psiquiatra e neurologista Viktor Emil Frankl, um judeu, após ter sobrevivido a nada menos do que quatro campos de concentração. Não bastasse, sua esposa grávida foi obrigada por nazistas a abortar o bebê e acabou falecendo na prisão, assim como o pai de Frankl – embora ele tenha descoberto só depois de liberto. 

Enquanto encarcerado, o psiquiatra se dedicou a entender o que fazia com que algumas pessoas não sucumbissem frente às atrocidades vivenciadas, enquanto outras simplesmente se atiravam na frente dos fuzis. Sua descoberta originou a Logoterapia, a primeira escola (e talvez uma das únicas) dentro da Psicologia a lançar um olhar saudável sobre a religião, fundamentada na busca pelo sentido da vida.

Frankl teria descrito a perda do meu meu amigo como um trauma – uma experiência que gera efeito danoso ao emocional e pode levar ao adoecimento psíquico. Para dar conta dos traumas emocionais, a Logoterapia propõe algumas chaves. Abordarei duas delas nesse texto.

A primeira chave é a aceitação do sofrimento inevitável. É saber que todo ser humano passará, em algum momento da vida (ou em vários), pela tríade trágica: dor, culpa e morte – e que isso é parte da nossa existência. A capacidade de reconhecer nosso próprio sofrimento, aceitá-lo, abraçá-lo, de transformar a tragédia em triunfo, é o que nos torna humanos. 

JESUS CROSS.jpgE, bom, existe prova maior disso do que o Verbo Encarnado? Jesus Cristo, o próprio Deus que veio à terra em forma humana, entregou-se por completo. Foi traído, perseguido, torturado e morto. Ele nitidamente sofreu muito – não fosse assim, não teria pedido ao Pai que, se possível, afastasse aquele cálice. Mas dada a impossibilidade, aceitou, abraçou e amou a Cruz por CADA UM de nós. Tudo isso sem ter cometido um pecado sequer

Quando falei que vocês entenderiam a importância de participar de um grupo franciscano, é porque Francisco de Assis nos propõe essa humildade: “Quem sou eu diante de Deus?”. Quem somos nós diante Dele, da Criação, do seu Amor e de tudo que suportou?

Nós, tão pequenos, pecadores e miseráveis, somos imensamente amados e, portanto, dotados do livre arbítrio. Temos responsabilidade total sobre as nossas decisões – isso Frankl também ressaltou. Mesmo diante das situações mais adversas, como campos de concentração, ainda nos restam escolhas. Vamos mesmo culpar os outros e as circunstâncias pelo nosso sofrimento? Vamos mesmo encontrar justificativas e desculpas para amenizar nossas faltas, sejam elas pequenas ou grandes? Vamos seguir acreditando que devemos ser poupados da dor, da frustração, da culpa? Vamos continuar sentindo pena de nós mesmos?

Revisitar essas perguntas é um esforço diário e constante. Mas que grande passo, para mim, foi ter mudado a lógica e reconhecido minha impotência em relação aos meus pensamentos suicidas: quando o “Por que eu? Por que comigo?” deu lugar à humildade franciscana do “Por que não eu? Por que não comigo?”, a Glória de Deus começou a queimar tímida no meu coração.

Assim chegamos à segunda chave da Logoterapia, possivelmente a mais importante: entender que se a vida tem um sentido, o sofrimento também tem. Só precisamos encontrá-lo, porque é exatamente ele que proporcionará nosso crescimento. Nas palavras do próprio Frankl: “É justamente uma situação exterior extremamente difícil que dá à pessoa a oportunidade de crescer interiormente para além de si mesma”. Importante ressaltar que, de acordo com o psiquiatra, o sentido sempre será maior que a própria pessoa. Ou seja, se existe uma razão pela qual eu deveria viver e morrer, essa razão deve ser maior que eu – algo que me transcende. E não só isso. Algo que, quando encontrado, faça com que eu me sacrifique e abra mão do meu egocentrismo em prol do Bem Maior. 

Em 1 Timóteo 6:12 lemos: “Combata o bom combate da fé. Tome posse da vida eterna, para a qual você foi chamado e fez a boa confissão na presença de muitas testemunhas.”

Conferir sentido ao sofrimento, combater o bom combate da fé, é, pois, buscar a santidade. É o que todos queremos! É o que deve nos mover enquanto católicos. O Céu é um desejo que deve inundar cada célula do nosso corpo, pois elas foram tecidas com amor por Quem é de Lá e, como o pai do filho pródigo, quer que voltemos para casa. 

Como custei a entender que por mais tentadoras e convincentes que as ideações suicidas fossem/sejam, ceder a elas significaria nunca voltar para casa. Por toda a eternidade! E como isso deu sentido a tudo que vivi, pensei, senti nos últimos 10 anos. Aprendi depois de infinitas idas e vindas que poderia oferecer cada fisgada que sinto no meu coração como um sacrifício em remissão aos meus pecados, à conversão das pessoas, à salvação das almas. E a usar cada pensamento encardido que poderia me afastar de Deus como uma gota a mais de vontade para segui-Lo… mesmo que depois não haja Céu, mas apenas porque Seu Amor me é suficiente – como diz o belíssimo Soneto ao Cristo Crucificado, que Monsenhor Bianchini recitava com os olhos marejados.

Voltando à busca por sentido de Frankl, eu ainda poderia relatar aqui a história de centenas de santos e santas que, por terem encontrado o Sentido no sofrimento e na vida, intercedem hoje por nós do Céu. Mas prefiro destacar que para nós, cristãos, o percurso deve importar tanto quanto o destino final. Padre Léo fala repetidamente em suas pregações que, numa das cartas de São Paulo, ele usa 14 vezes a palavra alegria em 40 linhas de texto. O detalhe é que ele escreveu essas linhas enquanto estava preso, após ser perseguido, ter naufragado e sofrido um bocado. Qual o segredo de Paulo? Bom, o fato de ser um missionário não só conferia sentido a todo o seu sofrimento, como também fazia tudo valer a pena. Anunciar Jesus fazia dele um homem alegre; alegria essa que não vem do mundo, que não é euforia, mas é uma Alegria em Cristo – porque Ele é bom e nos ama muito! Como no Salmo 29:2, “Dai ao Senhor a glória devida ao seu nome, adorai o Senhor na beleza da santidade”.

É certo que para nós, muitas vezes, esse tal percurso é um deserto. Ficamos perdidos, passamos por provações, caímos e oscilamos na fé. Recentemente ouvimos numa Escolinha Missionária que “se for para cair, que caiamos de joelhos”. É isso: se temos um sentido que nos orienta, então saberemos cair. E levantar. Quantas vezes forem necessárias, desde que essa seja nossa escolha. Novamente nos ensina o Padre Léo: nesses momentos devemos encontrar um fio condutor que nos oriente pelo deserto. Orientar-se significa voltar-se ao oriente, ou seja, mirar em direção ao Sol – e dessa forma, como consequência, deixar as sombras todas para trás. 

 Só é possível encontrar e viver o sentido no sofrimento quando se olha para algo que está Além. É assim que hoje, mesmo sabendo que há muito pela frente, posso olhar para trás e entender o que meu querido Servo de Deus quis dizer com “Existe uma beleza escondida em cada fase da nossa jornada”: a beleza de escolher ouvir, em vez da voz que me tenta para a morte, aquela que diz “Vem e segue-Me”.

amanda

Amanda Scapini

Apaixonada pela família, pelos amigos e por encontrar com Deus nas coisas simples.

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