A Santíssima Eucaristia – Corpus Christi

A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, mais conhecida como Corpus Christi, é celebrada todos os anos na primeira quinta-feira após a Oitava de Pentecostes.

Papa Urbano IV ~ Paróquia de Nossa Senhora da PiedadeFoi instituída pelo Papa Urbano IV, em 1264.

Leio ser “mais notável que esse decreto do Papa, os antecedentes espirituais. A literatura
normalmente aponta dois eventos principais que culminaram com a instituição dessa solenidade:

* uma visão de Santa Juliana de Liège, religiosa agostiniana belga, e
* um milagre eucarístico ocorrido na cidade de Bolsena, na Itália.

O Papa Urbano IV conheceu pessoalmente Santa Juliana e o milagre.”

Oitocentos anos depois, outro Papa, Bento XVI, em uma catequese sobre Santa Juliana (audiência geral de 17 de novembro de 2010), explicou:

“Com a idade de 16 anos (por volta de 1209) ela teve uma primeira visão, que depois se repetiu várias vezes nas suas adorações eucarísticas. A visão apresentava a lua no seu mais completo esplendor, com uma faixa escura que a atravessava diametralmente. Deus levou-a a compreender o significado daquilo que lhe tinha aparecido.

A lua simbolizava a Igreja, a vida da Igreja na terra; a linha opaca representava, ao contrário, a ausência de uma festa litúrgica, para cuja instituição se pedia a Juliana que trabalhasse de maneira eficaz: ou seja, uma festa em que os fiéis pudessem adorar a Eucaristia, para aumentar a fé, prosperar na prática das virtudes e reparar as ofensas ao Santíssimo Sacramento.

Pela boa causa da festa de Corpus Christi foi conquistado Tiago Pantaleão, de Troyes, que conhecera a santa durante o seu ministério de arquidiácono em Liège. Foi precisamente ele que, tendo se tornado Papa com o nome de Urbano IV, instituiu a solenidade de Corpus Christi como festa de preceito para a Igreja universal”.

O chamado ‘milagre de Bolsena-Orvieto’, por sua vez, foi realizado por Deus com um sentido bem particular: firmar a fé vacilante de um sacerdote.

O milagre eucarístico com o qual se instituiu a Solenidade de ...

“Em 1263 – um ano antes, portanto, da instituição de Corpus Christi -, um padre alemão, chamado Pedro de Praga, parou na cidade de Bolsena, na Itália, depois de uma peregrinação a Roma. A crônica geralmente o descreve como um padre piedoso, mas que tinha dificuldades para acreditar que Cristo estivesse realmente presente na Hóstia consagrada. Eis, então, o que lhe aconteceu:

Enquanto celebrava a Missa sobre o túmulo de Santa Cristina, mal havia ele pronunciado as palavras da consagração, o sangue começou a escorrer da Hóstia consagrada, gotejando em suas mãos e descendo sobre o altar e o corporal. O padre ficou perplexo. A princípio, tentou esconder o sangue, mas então interrompeu a Missa e pediu para ser levado à cidade vizinha de Orvieto, onde o Papa Urbano IV então residia.

O Papa ouviu o relato do padre e o absolveu. Mandou então emissários fazerem uma investigação imediata. Quando todos os fatos foram confirmados, ele ordenou ao Bispo da Diocese que trouxesse a Orvieto a Hóstia e o pano de linho contendo as manchas de sangue. Juntamente com cardeais, arcebispos e bispos, o Papa realizou uma procissão e, com grande pompa, introduziu as relíquias na catedral.

O corporal de linho contendo as marcas de sangue ainda está reverentemente conservado e exposto na catedral de Orvieto.

Depois disso, Sua Santidade pediu a ninguém menos que Santo Tomás de Aquino para compor os textos litúrgicos referentes a Corpus Christi. Ali nasceram os mais belos hinos já escritos ao Santíssimo Sacramento, e que todos cantamos ainda hoje.

Corpus Christi: o que se comemora nesse dia e por que é feriado ...

Mas, o que tudo isso tem a ver conosco?

Lembremo-nos dos três fins com que Jesus pediu essa festa a Santa Juliana: ‘aumentar a fé, prosperar na prática das virtudes e reparar as ofensas ao Santíssimo Sacramento’. Todos atualíssimos.

Pois a fé católica no sacramento da Eucaristia parece perder-se cada vez mais. Como consequência disso, multiplicam-se as profanações e os sacrilégios. O que deveria ser, então, alimento para fortalecer as almas, transforma-se em causa de sua própria condenação, para usar as palavras de São Paulo escritas na 1a carta aos Coríntios 11,29: ‘Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação’.

Papa Francisco e a festa de Corpus Christi – Rádio Catedral FM RJ ...

Por tudo isso, Corpus Christi é um dia de reparação. Reparação pela falta de fé generalizada em que se encontram tantos católicos, participando da Santa Missa de qualquer modo e recebendo a Comunhão como se fosse um pedacinho qualquer de pão.
Reparação porque, apesar de tantos milagres eucarísticos, como o de Bolsena, em que Deus parece gritar aos nossos ouvidos a verdade de sua presença real na Eucaristia, nós, ingratos, teimamos em não crer, em não adorar, em não esperar e em não amá-lo. Reparação porque, a um Deus que deseja ardentemente se unir a nós, a nossa resposta tantas vezes é a frouxidão, a frieza, a indiferença.

Corpus Christi é uma festa para aumentar a fé, prosperar na prática das virtudes e reparar as ofensas ao Santíssimo Sacramento. Reparemos, portanto, o Coração Eucarístico de Nosso Senhor, mas com um coração alegre e agradecido de nossa parte, porque é Ele mesmo quem nos torna possível essa graça.”

Presidindo à Santa Missa na Basílica de São João de Latrão, em Roma, e à procissão eucarística na solenidade de Corpus Christi de 2005, o Papa Bento XVI disse:

“Neste sacramento, o Senhor está sempre a caminho no mundo. Este aspecto universal da presença eucarística sobressai na procissão da nossa festa. Nós levamos Cristo, presente na figura do pão, pelas estradas da nossa cidade. Nós confiamos estas estradas, estas casas – a nossa vida cotidiana – à sua bondade. Que as nossas estradas sejam de Jesus! Que as nossas casas sejam para Ele e com Ele! A nossa vida de todos os dias esteja penetrada da sua presença.

(…) A procissão pretende ser uma bênção grande e pública para a nossa cidade: Cristo é, em pessoa, a bênção divina para o mundo.
(…) Maria, a Mãe do Senhor, chamada pelo querido Papa João Paulo II ‘mulher eucarística’, nos ensina o que significa entrar em comunhão com Cristo: ela ofereceu a própria carne, o próprio sangue a Jesus e tornou-se tenda viva do Verbo, deixando-se penetrar no corpo e no espírito pela sua presença.

Peçamos a ela, nossa santa Mãe, que nos ajude a abrir, cada vez mais, todo o nosso ser e o nosso estar na presença de Cristo; para que nos ajude a segui-lo fielmente, dia após dia, pelos caminhos da nossa vida!”

(L’Osservatore Romano de 4 de junho de 2005, página 3).

Falamos há pouco do milagre eucarístico ocorrido em Bolsena, na Itália, em 1263; tratemos, agora, do milagre eucarístico que aconteceu em 1411 em Ludbreg, na Croácia.

“Um sacerdote foi celebrar a Missa na capela do castelo dos condes Batthyany, mas quando ele estava consagrando o vinho duvidou que a transubstanciação – isto é, a transformação do vinho no sangue de Cristo – acontecesse realmente. Nesse exato momento, o vinho se transformou em sangue.

Visions of Jesus Christ.com - Eucharistic Miracle Ludbreg, CroatiaO sacerdote, sem saber como proceder, por fim resolveu emparedar a relíquia atrás do altar principal e o pedreiro que fez esse trabalho foi obrigado a guardar silêncio. O sacerdote guardou seu segredo até os últimos momentos da vida, quando, finalmente, revelou tudo. Depois dessa revelação, a notícia se espalhou rapidamente e muitos começaram a peregrinar a Ludbreg.

A Santa Sé mandou, então, que a relíquia do milagre fosse conduzida a Roma e ficasse lá por alguns anos. Os moradores de Ludbreg e das vizinhanças, contudo, continuaram a fazer peregrinações rumo à capela do castelo.

No começo dos anos 1500, durante o pontificado de Júlio II, uma comissão foi convocada para investigar os fatos. Muitas pessoas testemunharam que haviam sido curadas milagrosamente em oração diante da relíquia.

No dia 14 de abril de 1513, o Papa Leão X publicou uma Bula em que autorizava a veneração da santa relíquia que ele mesmo havia levado em procissão pelas ruas de Roma. A relíquia, depois, foi restituída à Croácia.

Durante o século XVIII, a Croácia setentrional foi arrasada pela peste e todo o povo implorou a ajuda de Deus. O Parlamento croata, reunido na sessão de 15 de dezembro de 1739 em Varazdin, prometeu ao Senhor construir uma capela em Ludbreg, em memória do milagre, se a peste terminasse. A peste cessou, mas só foi possível cumprir a promessa em 1994, com o restabelecimento da democracia naquele país.”

Este milagre em Ludbreg foi citado pelo Papa Bento XVI na homilia durante a Missa por ocasião do Dia Nacional das Famílias Católicas Croatas, Missa celebrada no hipódromo de Zagrábia na manhã de domingo, 5 de junho de 2011

(L’Osservatore Romano de 11 de junho de 2011, página 10).

Nesta solenidade de Corpus Christi, recordemos o que disseram alguns santos sobre a Eucaristia:

-> São Cirilo de Jerusalém, Bispo e Doutor da Igreja que viveu no século IV, afirmou: “Assim nos tornamos também portadores de Cristo, porque o seu corpo e o seu sangue se distribuem pelos nossos membros; e, segundo a expressão de São Pedro, ‘tornamo-nos também participantes da natureza divina’ (2Pd 1,4)”.
-> Santo Afonso de Ligório: “Nenhum outro sacramento faz crescer tanto o amor de Deus nas almas como a Eucaristia, onde Jesus se dá todo para nos unir inteiramente a ele através de seu amor”.

-> Santa Catarina de Sena: “Quando não posso receber o Senhor na Eucaristia, vou à igreja, e lá fico olhando para Ele e isso me sacia”

-> Santo Tomás de Aquino: “A Eucaristia é o sacramento dos sacramentos: todos os demais estão ordenados a este como a seu fim”.

-> São Leão Magno: “A participação ao corpo e ao sangue de Cristo atua de tal maneira que nos transformamos naquilo que recebemos e, com plenitude, levamos – no espírito e na carne – aquele com o qual morremos, com que fomos sepultados e ressuscitados”

Cada vez que vou a Buenos Aires procuro fazer uma visita a Jesus na Basílica do Santíssimo Sacramento, igreja encimada por uma grande imagem de São Pedro Julião Eymard. É uma beleza.

Basílica do Santíssimo Sacramento – Buenos Aires « Congregação dos ...

Ele morreu em 1868. Quatro anos antes, escrevera:

“O grande mal da época é que não se vê a Jesus Cristo como Salvador e Deus. Descuida-se o fundamento, a lei, a graça que salva. O vício da devoção infrutífera está em que esta não parte de Jesus Cristo ou não chega a Ele; pára no caminho… Quem não põe sua vida e seu centro no sacramento da Eucaristia se apagará como uma fogueira que não é alimentada…

Então, o que se pode fazer? Retornar à fonte, a Jesus; não somente ao Jesus que passou pela terra ou ao Jesus glorificado no céu, mas também, e sobretudo, a Jesus na Eucaristia!”

(19. Pequeño Catecismo Eucarístico, Pe. Roberto Coggi, Istituto San Clemente I Papa y Mártir, Roma, edição promovida por ocasião do 48o Congresso Eucarístico Internacional em Guadalajara, México, 2004, página 102).

-> Santa Maria Madalena de Pazzi, freira carmelita descalça que morreu em 1607, teve extraordinárias experiências místicas e, acima de tudo, sofrimentos. Ela escreve em uma de suas meditações: Santa Maria Madalena de Pazzi | Paróquia São José

“A boca da alma… docemente vos saboreia, ó Verbo! Saboreia a pureza da vossa Divindade e chega a um tal conhecimento de vossa pureza que, as virtudes que antes lhe pareciam tais, agora as tem por defeitos, em si e nos outros.

Ao receber, na Comunhão, o Santíssimo Sacramento, cujas virtudes lhe vêm todas de vosso Sangue e de vossa Paixão, chega a alma a saborear, por meio dele, a doçura de vossa Paixão e Sangue derramado.

E tanto mais saboreia tal doçura, ao comungar o Santíssimo Sacramento de vosso Corpo e Sangue, por estar nele oculta essa doçura mais que em nenhum outro, quando verdadeiramente o recebemos com pureza e sinceridade. Quem quiser experimentar vossa suavidade e doçura, aproxime-se desse Sangue e todo repouso e consolação encontrará. Será lavado no Sangue, adornado de Sangue, purificado no Sangue, nutrido de Sangue.” (I Colóquios, Op., v. 3, p. 90, in Intimidade Divina, Pe. Gabriel de Santa Maria Madalena, página 1153).

Através da comunhão do seu corpo e sangue, Cristo nos comunica também o seu Espírito. Escreve Santo Efrém, Doutor da Igreja do século IV: “Cristo chamou o pão seu corpo vivo, encheu-o de si próprio e do seu Espírito. E aquele que o come com fé, come Fogo e Espírito. Tomai e comei-o todos; e, com ele, comei o Espírito Santo. De fato, é verdadeiramente o meu corpo, e quem o come viverá eternamente”

(Homilia V para a Semana Santa, citado por São João Paulo II, EE n. 17).

Na magnífica carta encíclica Ecclesia de Eucharistia – A Igreja vive da Eucaristia -, comemorativa do 25o ano do Pontificado de São João Paulo II, em 2003, Sua Santidade pergunta, como que perplexo ante a grandiosidade e a santidade da Eucaristia: “Que mais poderia Jesus ter feito por nós?

Verdadeiramente, na Eucaristia demonstra-nos um amor levado até o extremo (cf. Jo 13,1), umamor sem medida” (n. 11).

-> Santo Agostinho, com a sabedoria que Deus lhe deu, diz, numa síntese profunda, colocando as palavras nos lábios de Jesus: “Sou o alimento dos grandes. Cresce e te nutrirás de mim. E não serás tu a transformar-me em ti, como o alimento da tua carne, mas serás transformado em mim”!

Cada vez que comungamos, digamos assim como Paulo, na carta aos Gálatas 2,20: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim”!

-> São João Paulo II termina sua preciosa encíclica com um convite, que aqui repetimos: “Meus queridos irmãos e irmãs, vamos à escola dos santos, grandes intérpretes da verdadeira piedade eucarística. Neles, a teologia da Eucaristia adquire todo o brilho de uma vivência, contagia-nos e, por assim dizer, nos abrasa.

Ponhamo-nos sobretudo à escuta de Maria Santíssima, porque nela, como em mais ninguém, o mistério eucarístico aparece como o mistério da luz. Olhando-a, conhecemos a força transformadora que possui a Eucaristia. Nela, vemos o mundo renovado no amor. Contemplando-a, elevada ao Céu em corpo e alma, vemos um pedaço do ‘novo céu’ e da ‘nova terra’ que se hão de abrir diante dos nossos olhos na segunda vinda de Cristo.

A Eucaristia constitui aqui na terra o seu penhor e, de algum modo, antecipação: ‘Vem, Senhor Jesus!’ (Ap 22,20)” (n. 62).

Até a próxima!

Texto de: 19 de junho de 2019

Arte Padrão - amarelo (2)

Prof. Carlos Martendal

Orientador das Equipes de Nossa Senhora, professor aposentado da UFSC.

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